Por Erika Kokay*
A CUT – a Central Única dos Trabalhadores - nasceu com o surgimento do sindicalismo combativo do final dos anos 70 e início dos anos 80. Ela completa 25 anos neste mês, ainda comemorando recentes conquistas, como a legalização das centrais sindicais – bandeira histórica do movimento operário brasileiro.
Nestes 25 anos, podemos fazer um balanço de alguns momentos históricos que a CUT presenciou, como a luta pela redemocratização do país, o surgimento do neoliberalismo – com conseqüências nefastas para os trabalhadores e a atividade sindical – e o atual momento histórico com o governo liderado pelo presidente Lula.
A fundação da central se deu num momento de crescimento do movimento operário que lutou logo no seu início pelo fim do regime de arbítrio e pela redemocratização do Brasil até a eleição de um presidente operário e líder sindical. Naquela época, em outra conjuntura, a pauta do movimento sindical era diferente com foco de construir uma unidade popular, social e sindical pela luta contra a ditadura e pelas liberdades democráticas.
Naquele momento, a construção de organizações como a CUT e o PT se dava com o foco nas bandeiras contra a ditadura e pela defesa dos direitos dos trabalhadores das cidades e do campo. Desde o 1º Congresso das Classes Trabalhadoras (Conclat), realizado em 1981, algumas bandeiras continuam fazendo parte das nossas reivindicações como a reforma agrária e a redução da jornada de trabalho. De lá para cá houve avanços em relação à democratização do país e das relações de trabalho. Hoje, a pauta é mais é mais diversificada envolvendo reivindicações de outros movimentos como os dos sem-teto e sem-terra.
A década de 90, foi de ataques do neoliberalismo aos trabalhadores e de resistência do movimento sindical. O processo de abertura indiscriminada do mercado externo, iniciado no governo Collor, e as privatizações e a implementação do Estado mínimo, conduzidas pelo governo FHC, criaram uma situação de enorme desemprego, mas atingindo também o setor produtivo com a estagnação econômica e a ausência de um projeto industrial.
No Brasil, a questão das plataformas de petróleo e a retomada da indústria naval demonstram que a idéia do Estado mínimo era equivocada, pois o Estado deve ser o indutor do desenvolvimento. Isso demonstra a importância do papel do Estado, que atrai investimentos privados e públicos para aumentar a produção e o crescimento econômico, isso se reflete no emprego e nas campanhas salariais. O movimento sindical não briga mais para manter os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras ou garantir a reposição da inflação. Hoje, segundo o Dieese, 97% dos acordos trabalhistas são fechados com aumento real de salário. Há uma pauta maior, como o 14º salário, o aumento da participação nos lucros e resultados e agenda social, como a questão da saúde e segurança no trabalho.
A CUT nasceu contra a unicidade sindical, o imposto sindical e a defesa do poder normativo da Justiça do Trabalho. A CUT continua querendo todas as correntes políticas dentro dela para que haja democracia e que todas as idéias sejam debatidas. As diferenças de concepção e prática sindical continuam existindo. A CUT, como diz o nosso presidente, Artur Henrique, constitui o sindicalismo autêntico, da porta de fábrica, que defende a organização no local de trabalho. Hoje, a CUT não é "única" central, mas luta pela unificação em torno de bandeiras comuns, fato este facilitado pela postura democrática e de diálogo do governo Lula, que traz para o debate nacional a questão do trabalho, ao contrário da década de 90, quando as centrais não se conversavam. O movimento sindical amadureceu, ao superar diferenças, unindo-se, por exemplo, na defesa do salário mínimo, da redução da jornada de trabalho e da democratização das relações de trabalho e de gênero.
Hoje, para a CUT e, em especial, para as mulheres trabalhadoras, além da defesa da igualdade de oportunidades, também está colocado o desafio de evitar tanto a discriminação autoritária por uma suposta maior “fragilidade” feminina, bem como a “ditadura da perfeição”. Nesta última, o exercício das mais diferenciadas funções enquanto mãe, companheira, profissional, dirigente (entre outras), geralmente leva à excessiva exigência de perfeição no desempenho das mulheres, em comparação aos homens.
Orgulha-me muito ter presidido, em 2000, a CUT-DF, ajudando a construir um sindicalismo independente, combativo e cidadão, participando de forma decisiva na campanha pelo impeachment de Collor, contra a corrupção e o abuso dos banqueiros e em defesa dos bancos públicos e resistindo ativamente à nociva política neoliberal do governo FHC. A dominação na ordem capitalista contemporânea sofistica a superexploração ao mesmo tempo em que aumenta mundialmente as margens de exclusão da força de trabalho.
Nestes 25 anos de conquistas, a retomada do crescimento econômico, a geração recorde de empregos formais e a afirmação das políticas sociais trazem novos desafios para a classe trabalhadora no sentido de consolidar e ampliar os direitos sociais, coletivos e humanos, impulsionando o desenvolvimento, com distribuição de renda e justiça social.
* Deputada Distrital (PT-DF). Foi presidenta do Sindicato dos Bancários de Brasília, secretária-geral da Confederação Nacional dos Bancários e presidente da CUT-DF.
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