"Com direitos somos humanos por inteiro"
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10/03/2009
Sobre a dor e a delícia de ser mulher

A bancária Erika Kokay, ex-presidenta do Sindicato e atual líder do PT na Câmara Legislativa, faz resgate histórico da luta da mulher e fala dos desafios de hoje para a superação das desigualdades.

Informativo Bancário - Próximo já de completar uma década do século 21, quais bandeiras da causa feminina perduram e no que ainda é preciso avançar?
Erika Kokay - O ser humano só se reconhece como tal se for sujeito de sua própria história e se sentir livre. Por séculos, foi negado às mulheres o direito de serem donas de suas próprias histórias. As mulheres podiam ser castigadas, passavam das mãos dos pais para as dos maridos, não tinham direito ao voto, ao emprego. A igualdade de direi-tos de voto para homens e mulheres só foi alcançada em 1946. Até os anos 40, havia no Brasil um decreto que só permitia às mulheres praticar esportes autorizados e considerados adequados à sua “condição feminina”. Seu desejo não podia ser revelado. O patriarcalismo, portanto, atravessou séculos, mas persiste e tem suas expressões na política, no trabalho, no dia-a-dia. A mulher tem conquistado seu espaço em nossa sociedade, mas ainda nos deparamos com uma realidade onde dois terços dos pobres de todo o mundo são mulheres; de cada três mulheres, uma é sobrevivente da violência doméstica; dois terços das pessoas fora da escola são mulheres... E tem ainda a discriminação que não é medida, a ditadura da perfeição. Ou seja, se uma mulher ocupa um espaço tradicionalmente considerado masculino, ela não pode errar. Vemos isso no trânsito, vemos isso quando uma mulher ocupa cargos majoritários, políticos. No DF, as mulheres correspondem a 52% da população, mas, dos 24 deputados distritais, apenas três são mulheres.

IB - Como essa desigualdade se reflete no mercado de trabalho?
Erika - Sabemos que 30% dos lares são sustentados economicamente por mulheres, mas 78% das atividades domésticas são exclusivamente femininas, o que implica na dupla e na tripla jornadas de trabalho. É como se a sociedade nos dissesse: ‘você pode trabalhar e estudar, mas seu filho não pode adoe-cer, a casa deve estar limpa e impecá-vel...’. Isso segue a égide da ditadura da perfeição. Devemos desconstruir essa realidade, compartilhando as tarefas domésticas, a educação dos filhos. Quando eu presidia o Sindicato dos Bancários, incluímos creches em todas as atividades para que as mulheres participassem, pois percebemos que os homens eram maioria nas assembléias. Tudo isso é fruto de séculos de sexismo.

 IB - Como você avalia a participação feminina no movimento sindical?
Erika - Em todos esses anos, fui a única mulher a presidir o Sindicato dos Bancários. As mulheres representam 50% dessa categoria, mas, para participar, durante anos tivemos que esconder nossas características femininas. Era praticamente obrigatório o uso do uniforme tênis, calça jeans e camiseta. A companheira Ana Liesi foi a primeira mulher a fazer concurso para o Banco do Brasil – até os anos 70, só homens podiam concorrer a uma vaga. Ela precisou entrar na Justiça do Rio Grande do Sul para ter o direito de fa-zer o concurso. Até hoje é uma grande construtora da eqüidade de gênero entre os bancários. Hoje, lutamos pelo microfone, pela caneta e pelo batom. Lutamos para galgar todos os espaços, públicos e particulares, que não podem ser negados ao ser humano.

IB - A intervenção política da mu-lher representa disputa de poder com o homem?
Erika - A mulher luta pelo poder, mas não contra os homens. Nossa luta é para sermos nós mesmas, decidir a própria vida e organizar os próprios passos. Para isso, precisamos de políticas públicas com recorte de gênero; que bancos e empresas tenham eqüidade de gênero, o que não se resolverá por si mesmo; precisamos nos apropriar das conquistas alcançadas até agora, como o voto, a Lei Maria da Penha... Todas essas conquistas foram frutos de muita luta. Por trás da Lei Maria da Penha, por exemplo, há muita luta, muita dor e muita esperança. O próprio 8 de Março foi assim construído. Em nossa experiência de seis anos como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa, percebemos que ainda há muita dor em ser mulher. São inúmeros casos de violência doméstica. Recentemente, tivemos que encaminhar duas mulheres para o programa federal de proteção a vítimas e testemunhas para que elas pudessem preservar suas vidas, ameaçadas que estavam por seus ex-maridos. Mas, na dor e na delícia de ser mulher, não tenho dúvida de que a delícia superará a dor em todas as formas de discriminação.

 
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